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A origem do nome SAIRÉ e o seu significado

A origem do nome SAIRÉ e o seu significado

 

Osmar de Albuquerque Pontes Júnior

 

 

         

 Quando o governo federal realizou a revisão da divisão administrativa do país no ano de 1943, exigiu que os estados providenciassem a eliminação da repetição que existia nos nomes de diversas cidades e vilas.

       O Decreto-Lei nº 5.901/43 que estabeleceu as normas para que os estados cumprissem tal exigência, recomendou que no momento da substituição do nome da localidade (cidade ou vila) fosse dada preferência para adoção de nomes indígenas ou outros com propriedade local.

          E foi assim que muitas cidades e vilas de Pernambuco perderam seus nomes originais e receberam nomes indígenas ou nomes com significados regionais.

Por exemplo:

CIDADES – Bebedouro mudou para Agrestina; Queimadas mudou para Orobó; Leopoldina mudou para Parnamirim; Rio Branco mudou para Arcoverde e São Gonçalo mudou para Araripina.

VILAS – Riacho Doce (em Caruaru) mudou para Carapatós; Torres (em Taquaritinga do Norte) mudou para Toritama; Santo André (em Rio Formoso) mudou para Saué; Barro (em Bom Conselho) mudou para Saloá e São Miguel (em Bezerros) mudou para Sairé.

Portanto, a partir de 1º de Janeiro de 1944 a Vila de São Miguel, então sede do 3º Distrito de Bezerros, teve seu nome mudado para Sairé, nome que inclusive foi mantido para o município criado em 20 de Dezembro de 1963 pela Lei Estadual nº 4942, pelo desmembramento do referido distrito do território de Bezerros.

           Mas, afinal de contas, qual a origem do nome “SAIRÉ” ? E qual é o seu significado ?

       É comum ouvirmos dizer que o nome “SAIRÉ” designa um tipo de “balaio” ou “cesto de cipó” de origem indígena.

           Ao descrever a história e a formação administrativa do município de Sairé em seu site oficial, o IBGE informa que acredita-se que o nome do rio Sirinhaém (vocábulo tupi) tenha dado origem ao nome Sairé pela corruptela Sri-nha-ém em Sai-ra-é e, finalmente, Sairé.


           Outra opinião sobre a origem do nome Sairé encontramos em HOMERO FONSECA (1), o qual se refere ao lexicógrafo LUIZ CALDAS TIBIRIÇÁ, informando acreditar ele que Sairé se origina do tupi Sair-é que significa “saíra diferente”, e que esta palavra designaria um pássaro do gênero Tangará, abundante na América do Sul.

       MÁRIO MELO, historiador e geógrafo pernambucano, quando presidente da Comissão de Divisão Administrativa do estado em 1943, ao sugerir ao Conselho Nacional de Geografia a mudança do nome da Vila de Santo André (em Rio formoso-PR) para Sairé, justificou, dizendo: “Sairé é um triângulo indígena, adaptado pelas famílias para aos selvagens dar a ideia da S.S. Trindade”. (sic) Sairé (que também se encontra escrito Çairé), portanto, é um instrumento usado originariamente pelos índios Tapuias da região amazônica em suas festas religiosas, herança deixada pelos missionários jesuítas que catequizaram os indígenas no Brasil no Século XVIII, e que ainda hoje tem sua tradição preservada na “Festa do Sairé”, realizada no mês de setembro em Alter do Chão, distrito do município de Santarém-PASairé é o instrumento descrito por MÁRIO MELO, mas também é um tipo de cerimônia realizada pelos índios Tapuias durante a celebração das festas religiosas em devoção aos santos católicos.

         O registro mais antigo sobre a realização da cerimônia do Sairé praticada pelos indígenas na região do que é hoje o estado do Pará, foi feito pelo padre JOÃO DANIEL, missionário jesuíta que esteve na região amazônica entre 1741 e 1757, o qual em suas memórias publicadas com o título “Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas”, escreveu: “Consiste o Sairé em uma boa quantidade de meninos, todos em fileira atrás uns dos outros com as mãos nos ombros dos que lhe ficam adiante, em três, quatro ou mais fileiras; e na vanguarda anda um menino, se a dança é de ascânios, dos mais altos, ou menina, quando o Sairé é de hembras, das mais taludas pegando com ambas as mãos nas bases de um meio arco, o qual em várias travessas está enfeitado com algodão, flores, e outras curiosidades”. (2)

       Em 1762 o então Bispo da Capitania do Pará, JOÃO DE SÃO JOSÉ QUEIRÓS, em visita à Vila Franca, escreveu: “Veio uma dança de índias às portas das casas da residência em que estávamos, e ao seu modo dançaram muito honestamente, tendo cinco em fileira um semicírculo ou meio arco de pau; em que pegavam todas sustentando-o na base que do círculo inteiro seria o diâmetro, governando uma índia a dança, e sustentando com um listão preso ao mesmo arco, alargando-o ou recolhendo quando retrocediam ou quando ganhavam mais terreiro avançando com o dito arco, a que chamam Sayré. (3)


          A descrição mais autêntica sobre a verdadeira origem do nome Sairé e sobre o seu verdadeiro significado encontramos no trabalho “O Canto e a Dança Selvicola”, do naturalista JOÃO BARBOSA RODRIGUES (4) que entre 1872 e 1875 esteve no vale do Rio Amazonas fazendo estudos, e sobre as tradições indígenas relacionadas ao Sairé escreveu: Além da dança e do canto festivo tem os Tapuias no dia de alguma festa religiosa, como a de São Tomé, São João, ou Santo Antônio, um canto, antes uma saudação religiosa, introduzida nestas festas pelos missionários e chamada Sairé ou Turyua.

            Esta é uma espécie de procissão de mulheres em que carregam o instrumento que tem o mesmo nome Sairé. Não faz por si a festa, mas, como disse, entra como uma saudação. A procissão dirige-se à Igreja, à casa do Juiz da festa, à do Vigário, etc., e aí as palavras da saudação não são as mesmas e sim próprias a quem se dirigem.

         A palavra Sairé deriva-se de Çai e eré salve! tu o dizes ou saudação, Turyua, significa alegria.

           Por mais de uma vez assisti ao Sairé e nele tomei parte, sempre vindo ele saudar-me, no dia de alguma festa. A primeira vez quando festejavam Santo Antônio, na povoação do Ereré, a segunda em Santarém, quando festejavam São João, a terceira no lago José-Assú, em Vila Bela, em uma casa em que festejava-se a Senhora da Saúde.

           O instrumento denominado Sairé é um semicírculo de madeira de 1,40m de diâmetro, contendo dentro dois outros menores, colocados um a par do outro, sobre o diâmetro do maior. Da união dos dois parte um raio do grande, que, excedendo a circunferência, aí forma uma cruz. Os menores têm também o seu raio perpendicular ao diâmetro comum rematados em cruz. Estes arcos são envolvidos por algodão batido, enleado por fitas, e enfeitados com espelhinhos, doces, frutas, etc. Da cruz do raio maior parte uma longa fita.

         Este instrumento inventado pelos missionários para perpetuar e firmar mais a religião entre os índios tem uma significação bíblica. O Sairé perpepua o dilúvio e as três pessoas da S.S. Trindade, creio eu e assim explico: O arco significa a Arca de Noé, os espelhos a luz, os biscoitos e frutas a abundância que havia na mesma arca, o algodão e o tamborinho a espuma e o ruído das águas, o movimento dado ao Sairé, o balançar da mesma arca, e as três cruzes, sendo a superior maior, as três pessoas distintas da S.S. Trindade, e um Deus verdadeiro, representado pela cruz maior e mais elevada.


          Quando festeja-se algum santo, por alguma promessa, levantam em casa um altar, onde colocam a imagem milagrosa, aos pés da qual fica o Sairé. Preparam junto à casa uma grande ramada, isto é, uma grande palhoça, onde é servido o jantar aos convidados e fazem-se as danças. Dias antes da festa preparam grande quantidade de tarubá ou mucururú, que é a alma da festa. Se a ladainha, que sempre acompanha estas promessas, é feita na Igreja, o Sairé sai de casa, em procissão, e se dirige para o templo.

             A ordem da procissão é a seguinte:

          Abre marcha um Tapuia, levando uma bandeira branca onde a imagem do santo festejado é pintada; logo após o Sairé carregado por três Tapuias velhas, que o suspendem pelo diâmetro, seguindo-se atrás delas uma moça, segurando a ponta da fita que parte da cruz superior. Ao lado desta vai outra moça, levando debaixo do braço um tamborinho, cuja vaqueta é enfeitada de fitas de diversas cores. Segue atrás o mulherio vestido à bandarra, isto é, com trajes de festa e de folia; camisa de gola de renda, saia alva, tendo a maneira aberta para deixar ver um crivo da camisa por onde a carne transparece, flores nos cabelos, e muito perfume de periperioca e pataquera. Em seguida vão os Tapuias fechando o préstito.

          Durante o trajeto as velhas vão inclinando o Sairé ora para frente, ora para trás, e a moça da fita, saltando de um para outro lado, cadenciando o movimento e os saltos, pela entoação do canto das três mestras, cujo compasso é marcado por pancadas no tamborinho. O canto é sempre pela língua geral, e repetido em coro pelo mulherio.

         Este é triste e monótono e sempre a letra é sobre o motivo religioso. Assim em procissão vão saudar o Juiz da festa e levá-lo para a Igreja, assim como o Vigário, que depois da ladainha são levados para a ramada, onde serve-se o jantar. Durante este, enquanto os convivas regalam-se, as cinco mulheres, figuras obrigadas, rodeiam a mesa, cantando e saudando os convivas. Findo o jantar, levam o Vigário para casa precedido do Sairé.

           Em Santarém depois da ladainha, como eu era hóspede na terra e estava relacionado com todos os Tapuias da aldeia, vieram a minha casa saudar-me com o Sairé. Então não pude compreender a saudação que me faziam, porque começava a aprender o Tupy. Mais tarde assisti no lago José-Assú, no Amazonas, a uma festa, onde, durante o jantar que me serviram, estiveram as velhas atrás de mim, saudando-me com o mesmo Sairé. Depois do jantar dirigiram-se para o altar e aí as mestras de joelhos, e as da fita e tamborinho, dançando e tocando, terminaram a festa, cujas danças duravam três dias, com o seguinte canto, que pude tomar:


Purgatorio porá etá Uputare nemoessaua Semué catu pahy, Anhangá supeuara

Upauana tecó puranga Oike tecó péssassu, Ianeara tecó ressé Umumá tecó puranga

Tradução:

‘Ensina-me bom padre rezas com que possamos salvar nossas almas do purgatório. A vida santa acabou-se, e por vontade do bom Deus entrou outra, isto é, a vida do trabalho’.

          Durante a festa as danças duram dois ou três dias, sem interrupção de noite e de dia, acompanhadas de grandes libações.

         O padre João Daniel, no seu Tesouro, descreve o Sairé como festa de meninos e meninas; a ser exato o seu dizer, esta tradição perdeu-se, pois que no Amazonas hoje esta festa é privativa das mulheres e em geral velhas.

          É o Sairé a última tradição do tempo das missões dos Padres de Jesus, que tão bons frutos deram e que tanto trabalharam em prol da liberdade e dos direitos dos índios contra o jugo português, que, não contente com a escravidão deles, ainda sacrificaram mais de dois milhões entre 1615 e 1652”.

 

       Portanto, definitivamente o nome “SAIRÉ” não significa “saíra diferente”, nem designa um pássaro do gênero Tangará.

          O nome “SAIRÉ” também não é resultado da corruptela do nome “SIRINHAÉM” e, do mesmo modo, não designa um “balaio” ou um “cesto de cipó” indígena.

            Conforme abalizada fonte aqui demonstrada, o nome “SAIRÉ” é palavra de origem tupi, usada como saudação pelos índios Tapuias em festas religiosas que celebram os santos católicos, e significa “Salve! Tu o dizes”.

             Ao mesmo tempo, “SAIRÉ” é o instrumento inventado pelos padres Jesuítas que é usado pelos indígenas nas procissões destas festas religiosas, e simboliza a Arca de Noé e a S.S. Trindade (o Pai, o Filho e o Espírito Santo).

(1)  Fonseca, Homero. Pernambucânia. ed. Cepe, Recife, 2013.

(2)  (3) Textos extraídos do trabalho “Tradições Devotas, Lúdicas Inovações: o Sairé em Muitas Versões”. Autora: Luciana Gonçalves de Carvalho (Professora do Instituto de Ciências da Sociedade da Universidade Federal do Oeste do Pará UFOPA).

(4) BARBOSA RODRIGUES, J. O Canto e a Dança Selvicola. Revista Brazileira, Terceiro Ano, Tomo IX, 1881.


             Este texto foi escrito por Osmar de Albuquerque Pontes Júnior e o Blog A Voz de Sairé publica com a permissão do autor. 

          Ozéias Caetano da Silva agradece a colaboração desse filho ilustre de Sairé que engrandece e enaltece a nossa história com sua pesquisa histórica, que será muito importante para o povo saireense melhor possa se conhecer.

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