Coronel José Pessoa Souto Maior: O Homem, o Político e o seu Legado.
Por Osmar de Albuquerque Pontes Júnior (Janeiro/2024).
Contato: oapjunior1@gmail.com
Se por
curiosidade fosse decidido realizar um plebiscito no município e na cidade de
Sairé para se eleger qual é a personalidade lembrada como sendo a mais importante de sua história, não
correríamos muito risco de errar se
disséssemos que certamente a personalidade
eleita com esse “título” seria o
Coronel José Pessoa Souto Maior, também chamado pelos parentes e amigos
de “Cazuzinha”.
Figura
das mais atuantes no cenário político do município de Bezerros no início do século XX, é ele quem dá nome à principal rua da cidade
de Sairé e é dele o
único busto que existe na cidade,
mandado fazer pelo povo da então Vila de
São Miguel em sua homenagem e agradecimento pelos expressivos serviços que
realizou em prol da sua terra e da sua gente.
Pois,
há exatos 90 anos, mais precisamente
no dia 25 de janeiro de 1934,
chegava ao fim a vida do Coronel José Pessoa Souto Maior, figura das
mais destacadas que viveu no município de Bezerros
entre o final do século XIX e o início do século XX.
Faleceu
na referida data, por volta das 22:00h., na sua Fazenda Caiana,
zona rural pertencente hoje ao município de Sairé.
Naquele
tempo, o território que hoje pertence ao município de Sairé – incluindo as terras da Fazenda
Caiana – fazia parte do município de Bezerros
e correspondia ao seu Terceiro
Distrito, sendo denominado, na época, “Distrito
de São Miguel”.
Atestou sua morte o doutor Possidônio
da Silva Bem, que indicou como
causa mortis arteriosclerose.
Faleceu aos 68 anos e deixou como legado uma carreira política
em Bezerros
das mais relevantes do seu
tempo.
Nasceu,
viveu e morreu na Fazenda Caiana –
hoje pertencente ao município de Sairé –
e no seu tempo era o filho da terra que maior projeção política havia alcançado em Bezerros, tendo inclusive falecido
quando ocupava o cargo de Prefeito
do município, cargo para o qual havia sido nomeado em outubro de 1930, logo após o desencadeamento do movimento
revolucionário liderado por Getúlio Vargas, que ficou conhecido
como sendo a “Revolução de 30”.
Para
muitos o Coronel José Pessoa Souto Maior deve até ser considerado o “fundador” de Sairé, e embora para outros tantos tal afirmação possa parecer
exagero, esse “título” tem sua razão
de ser.
Explico.
É que
em Bezerros o Coronel José
Pessoa Souto Maior foi apoiador de primeira hora da candidatura do
General Dantas Barreto para o cargo de Governador de Pernambuco na eleição de 1911, em oposição à candidatura do então Senador Rosa
e Silva, que em Bezerros era
apoiada pelo grupo político liderado pelo Coronel Manoel Bezerra dos Santos Júnior e
seu genro, o também Coronel Salviano Machado Filho.
Naquele
ano, a disputa eleitoral entre Dantas Barreto e Rosa
e Silva foi das mais conturbadas já vistas no Estado de Pernambuco em todos os tempos e, ao final, foi levantada suspeita de fraude
sobre o resultado do pleito, que resultou em tumultos e desordens nas ruas do Recife e combates que causaram mortes
de partidários de ambos os lados.
Ao fim
dos confrontos, o General Dantas Barreto acabou sendo
considerado o ganhador da eleição e
os eventos ocorridos passaram para a história como sendo
“A Revolução Pernambucana de 1911”.
Se os
eventos relacionados à eleição de 1911 em
Pernambuco devem ou não ser
considerados uma “revolução”, é
assunto a ser discutido pelos historiadores.
Do que
não se tem dúvida é sobre a constatação de que foi a ascensão do General Dantas Barreto ao governo do Estado de Pernambuco em
1911 que alçou o Coronel José Pessoa Souto Maior à condição
de maior líder político no município de Bezerros na época.
No
entanto, mesmo antes da eleição de 1911 o
Coronel José Pessoa Souto Maior já se destacava no município de Bezerros como figura pública de peso,
uma vez que já possuía certa liderança política sobre o território do “Terceiro Distrito de Bezerros”, cuja
sede era o então Povoado de Boa Vista.
Tal liderança política nascente do Coronel
José Pessoa
Souto Maior se revela já em 1896. Neste ano foi criado o Terceiro
Distrito de Bezerros, tendo por sede o Povoado
de Boa Vista e o Coronel José Pessoa Souto Maior foi quem
primeiro ocupou o cargo de Juiz de Paz do
lugar, cargo que exerceu entre 1896 e
1900.
Pois bem.
Com a
ascensão de Dantas Barreto ao governo do Estado de Pernambuco em 1911,
e tendo sido o principal apoiador de sua candidatura no município de Bezerros, o Coronel José
Pessoa Souto Maior passou à condição de maior liderança política do
município, assumindo a chefia do grupo partidário que dali em diante – e por
quase 15 anos – comandou os destinos
políticos do município de Bezerros.
A força da liderança do Coronel José
Pessoa Souto Maior em Bezerros,
sob a nova ordem política
estabelecida no Estado de Pernambuco com
o governo Dantas Barreto, se revelou de imediato, uma vez que em menos de
um mês do início do novo governo, o Coronel José Pessoa Souto Maior articulou
politicamente e fez mudar a sede do “Terceiro
Distrito de Bezerros”, do então Povoado
de Boa Vista para o Povoado de São
Miguel, mudança que ocorreu precisamente no dia 05 de janeiro de 1912 e que elevou São Miguel à categoria de Vila.
Não
bastasse ter sido o grande responsável pelo prestígio dado a São Miguel, que de simples Povoado foi elevado à categoria de Vila – e como tal sede do “Terceiro Distrito
de Bezerros” – o Coronel José Pessoa Souto
Maior tem o mérito
de ter sido, também, o responsável pelo surgimento do Povoado de São Miguel, em 1907,
uma vez que se atribui a ele o pedido feito ao senhor Miguel Bezerra do Nascimento (“Miguel
Grande”) para doar à Igreja
Católica parte de suas terras do Sítio
Boca da Mata para a construção da Capela
de São Miguel.
Não se
tem conhecimento da existência de documentos confirmando que a doação de terras
do Sítio Boca da Mata, feita pelo
senhor Miguel Bezerra do Nascimento e sua esposa Maria Joaquina de Amorim,
tenha realmente recebido a influência do Coronel José Pessoa Souto Maior,
mas há grande probabilidade de que tal influência tenha de fato existido, já
que encontramos documentos que comprovam que no dia 20 de abril de 1907 o Bispo
de Olinda (Luiz Raimundo da Silva Brito) mandou lavrar Provisão nomeando o Coronel José
Pessoa Souto Maior como primeiro Administrador
de todos os bens pertencentes à Capela
de São Miguel.
Sobre
os muitos e relevantes serviços prestados pelo Coronel José Pessoa Souto Maior em
benefício do distrito, da vila e do povo de São Miguel,
vale registrar também o que foi publicado pela imprensa pernambucana por
ocasião do primeiro aniversário de sua morte. Vejamos a notícia que foi
publicada pelo jornal Diário da Manhã,
do dia 15 de fevereiro de 1935 (mencionando
as homenagens prestadas ao Coronel José Pessoa Souto Maior no dia 25 de janeiro de 1935, na cidade de Bezerros e na então Vila de São Miguel):
“Commemorando a
data do primeiro anniversário do fallecimento do Coronel José Pessoa Souto
Maior, ex-prefeito deste município e chefe de prestígio na localidade, foram
realizadas no dia 25 do corrente várias homenagens em memória do saudoso
extincto.
…
Estas
solemnidades tiveram um verdadeiro cunho de respeito e admiração que o povo em
geral mantinha pela figura respeitável e nobre do pranteado morto, e disseram
bem alto o quanto de seu valor no meio em que elle sempre viveu, fazendo da
honestidade e do cumprimento do dever o seu maior ideal.
Às 16 horas na
próspera Villa de S. Miguel, 3º districto deste município, foi inaugurada a
estátua do Coronel José Pessoa, em uma de suas mais pittorescas praças que
tomou o nome do seu grande bemfeitor e amigo.
…
Esta homenagem
foi prestada pelo povo de S. Miguel, sendo orador official o Cônego Alexandre
Cavalcanti, que em sentidas palavras enalteceu a vida passada do Coronel José Pessoa e os seus grandes merecimentos no
seio do povo que elle sempre dirigiu e estimou com verdadeiro carinho. Disse de
suas virtudes, de sua acção efficiente naquelle districto desde a sua fundação,
e do quanto elle produziu para ver erecta a capela ali existente, além de
outros melhoramentos realizados à sua custa.
…
Grande foi o
número de pessoas do povo que assistiu este acto demonstrativo de quanto valia
naquelle districto a personalidade desapparecida do Coronel José Pessoa.
…
Desta cidade (de Bezerros), seguiram para a
Villa de S. Miguel, em automóvel, várias famílias, amigos e parentes do
homenageado, além das autoridades e outras pessoas que para ali se
transportaram, a fim de tomarem parte
nas demonstrações de gratidão e respeito prestadas pelo povo
de S. Miguel ao seu grande
amigo e bemfeitor.”
A
publicação transcrita acima parece não deixar dúvida sobre a importância decisiva
que teve o Coronel José Pessoa Souto Maior no surgimento, consolidação
e progresso do Povoado de São
Miguel e sugere ter sido ele o responsável por criar as condições
necessárias para o surgimento do município
e cidade de Sairé.
Seja
como for, o fato é que a tradição transmitida entre as sucessivas gerações do lugar,
atribui a um pedido do Coronel
José Pessoa
Souto Maior a doação de terras feita em 1907 pelo senhor Miguel Bezerra do Nascimento no Sítio Boca da Mata, com a finalidade de
se erigir uma Capela para o culto de
São Miguel.
Doadas
as terras e iniciada a construção da Capela
de São Miguel em 1907, várias
casas também foram sendo construídas nas imediações do templo, dando origem ao
pequeno povoado que logo cresceu e
virou vila em 1912, e se tornou cidade em
1964, já com o nome que conhecemos
hoje (Sairé).
Bem se
vê que não é sem razão que muitos creditem ao Coronel José Pessoa Souto Maior os
“títulos” de “fundador”, “patrono” e “benfeitor” de Sairé.
Sem o
prestígio que teve como homem público respeitado, sem a influência política que
exerceu no município de Bezerros no
começo do século XX e sem o seu
esforço pessoal e empenho permanentes em prover o Povoado de São Miguel das condições necessárias para se consolidar
e progredir, talvez hoje Sairé não
fosse ainda cidade e nem município.
Porém, ao fazermos tais considerações sobre alguns aspectos
da personalidade do Coronel José
Pessoa Souto Maior, não queremos dizer com isso que no seu tempo havia unanimidade sobre ser ele uma
figura que possuía apenas virtudes.
Embora
para os moradores da Vila de São Miguel e
de todo o território do Terceiro
Distrito de Bezerros o Coronel José Pessoa Souto Maior fosse considerado
um benfeitor e um prestigiado chefe político, no âmbito
municipal das disputas eleitorais travadas para garantir o controle político da
administração de Bezerros (da Prefeitura e da Câmara de Vereadores), ele também angariava inimigos e desafetos.
Não é
difícil encontrarmos nos jornais pernambucanos que circularam entre os anos 1910 e 1930, cartas
publicadas a pedido de adversários políticos do Coronel José Pessoa Souto Maior –
muitas delas inclusive apócrifas – as quais fazem ataques à sua honra e tentam
macular a sua reputação de homem íntegro e político probo.
Mas,
como sabemos, cartas mandadas publicar por inimigos políticos com acusações sem
provas não merecem crédito, uma vez que não constitui nenhuma novidade, ainda
hoje, que políticos usem a imprensa para fazerem ataques a seus adversários com
denúncias falsas, visando unicamente desacreditá-los perante seus eleitores.
O
legado do Coronel José Pessoa Souto Maior não se resume, porém, a ter sido
somente o responsável pelo surgimento, consolidação e progresso
do Povoado de São Miguel.
Ao
longo da sua vida, exerceu várias funções de relevo e ocupou diversos cargos
públicos que lhe conferiram poder e prestígio.
Eis um resumo:
Começou
cedo a participar da política no município de Bezerros e em 1890, aos 25 anos de idade, já era membro do Partido Republicano;
Em 1896, como já mencionei no início do
trabalho, o Coronel José Pessoa Souto Maior, com apenas 30 anos de idade, foi quem primeiro ocupou o cargo de Juiz de Paz do recém criado Terceiro Distrito de Bezerros, cuja
sede era o então Povoado de Boa Vista;
Em 1896 o Coronel José Pessoa Souto Maior também
já fazia parte da Guarda Nacional (do
Batalhão de Bezerros) e há registro de que pelo menos desde 1902 ele já ostentava a Patente de Tenente-Coronel;
Em 1907
foi nomeado pelo Bispo de Olinda (Luiz Raimundo da Silva
Brito) como primeiro Administrador
dos bens pertencentes à Capela de
São Miguel;
Em 1911 foi Conselheiro Administrativo do Sindicato
Agrícola e Pastoril do Município de Bezerros;
Entre 1914 e 1916 foi 1º Suplente de Juiz
Municipal de Bezerros; De 1916 a 1919 exerceu o primeiro mandato de Prefeito
de Bezerros; De 1923 a
1925 exerceu o segundo mandato de Prefeito de
Bezerros;
Em 1928 foi lançado candidato a Deputado
Estadual como representante do
Partido Democrata
(embora não tenha sido
eleito);
De 1930 a 1934 exerceu o terceiro mandato de Prefeito de Bezerros. Duas curiosidades sobre a biografia do Coronel José Pessoa Souto Maior:
A
primeira é que, embora tenha atuado por muitos anos na vida política, parece
que não exerceu nenhum mandato no legislativo
municipal de Bezerros (de vereador ou conselheiro), vez que não encontramos nenhum registro neste
sentido.
A segunda é que, apesar de ter se destacado
pela liderança política exercida em Bezerros, o Coronel José
Pessoa Souto Maior se declarava “agricultor”
e foi exatamente como “agricultor” que
ele recebeu dois prêmios muito importantes.
Um
pela participação que teve na Exposição
Universal de 1911, em Turim, na Itália (recebeu uma “Medalha de Bronze” por ter exposto Mel de Abelhas de excelentes
qualidades).
Outro
pela participação na Exposição
Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada no Rio de Janeiro entre 1922 e 1923 (recebeu uma “Menção
Honrosa” pelas excelentes qualidades das amostras de madeiras que expôs no referido evento).
A notícia
da morte do Coronel
José Pessoa
Souto Maior no dia 25 de janeiro de 1934 causou grande comoção
no povo do município de Bezerros e
especialmente nos moradores da Vila de São Miguel
e de todo o Terceiro
Distrito, não só porque o seu falecimento se deu enquanto exercia
o terceiro mandato de Prefeito de Bezerros, mas sobretudo em
razão de na época estar ele no auge do exercício da sua liderança política e de ter alcançado o mais elevado grau de prestígio
e respeito popular, tanto que o próprio filho Octávio
Pessoa Souto Maior foi quem lhe sucedeu no cargo de Prefeito, primeiro como Prefeito Interino (nomeado
provisoriamente) e depois como Prefeito
Eleito (na eleição de 1935).
Sobre
a nomeação do Coronel José Pessoa Souto Maior, em 1930, para exercer o seu terceiro mandato de Prefeito de Bezerros, uma curiosidade:
Dissemos
anteriormente que o Coronel José Pessoa Souto Maior assumiu a liderança política do município de Bezerros em 1911, com a chegada ao poder do General Dantas Barreto, eleito Governador de Pernambuco naquele ano.
Desde
a proclamação da república, em 1889, e até a eleição do General Dantas
Barreto, em 1911, a política
em Bezerros era dominada pelos
membros do Partido Republicano (conservadores), cuja liderança máxima
até o final do século XIX era do
Coronel Manoel Bezerra dos Santos Júnior e no início do século XX passou a ser dividida com seu
genro, o também Coronel Salviano Machado Filho.
A proclamação
da república no Brasil, em 1889, extinguiu a monarquia e instituiu um novo sistema de governo no país.
Embora
em nível nacional este importante fato histórico tenha representado uma ruptura
institucional, que significou a perda do poder dos antigos governantes –
inclusive a derrubada do imperador e o banimento da família real – nos municípios do interior, não
houve, concretamente, grande mudança no comando da política local.
Na
prática, o poder político na maioria dos municípios permaneceu sob o comando das velhas oligarquias e os mesmos políticos que no império
comandavam a administração municipal, continuaram
dividindo o poder local, se revesando ora na Prefeitura (como Prefeitos ou
Secretários), ora na Câmara de Vereadores (como Vereadores ou Conselheiros).
Em Bezerros, por exemplo,
o grupo político que comandou
o município neste primeiro período, após a proclamação da república e até a
eleição de 1911, possuía muitos nomes de peso:
Coronel Manoel Bezerra dos Santos Júnior, Tenente-Coronel Francisco Gomes dos Santos,
Tenente-Coronel Guilhermino Tavares de Medeiros, Major Manoel Bezerra de Vasconcelos,
Tenente-Coronel Joaquim José Bezerra de Vasconcelos, Capitão Antônio
Soares de Oliveira, Francisco Gomes dos Santos, Coronel Salviano
Machado Filho, Joaquim Soares de Oliveira e tantos
outros.
Em 1911, portanto, o grupo político
comandado pelo Coronel Manoel Bezerra dos Santos Júnior em Bezerros perdeu o seu poder e o seu
lugar foi ocupado pelo grupo político comandado pelo Coronel José
Pessoa Souto Maior, do Partido
Democrata (liberais), o qual
também possuía representantes de grande importância: Coronel José
Francisco de Figueiredo Lima, Joaquim José Bezerra da Silva, Coronel José Manoel Ferreira Pontes, José
Antônio de Azevedo Melo, João Pessoa Souto Maior, entre
outros.
Entre 1911 e 1925 o Coronel José Pessoa Souto Maior e seu grupo
político exerceram poder quase
absoluto no município de Bezerros, mas na eleição municipal
de 1925 o candidato à Prefeito apresentado pelo Coronel José
Pessoa Souto Maior (Severino Borba) saiu derrotado e,
mais uma vez, o grupo do Partido
Republicano (conservadores)
retomou o controle da política local, sendo eleito Prefeito o novo chefe do referido
partido, o Coronel
Salviano Machado Filho (o qual havia assumido a liderança do partido após o
falecimento do Coronel Manoel Bezerra dos Santos Júnior,
seu ex-sogro, em 1919).
Assim,
entre 1925 e 1930 o Coronel José Pessoa Souto Maior deixou de
ter protagonismo na política municipal de Bezerros
e, apesar de ter sido lançado candidato a Deputado Estadual pelo Partido
Democrata em 1928 (mas não
eleito), não teve meios e nem espaço nesse período para demonstrar a sua força
política, praticamente anulada – ou poderíamos dizer “sufocada” – pela liderança do Coronel Salviano Machado Filho e
seu grupo político.
Mas,
como na política nada é definitivo, o movimento
revolucionário de 1930, liderado por Getúlio Vargas
e a Aliança Liberal, conhecido como “Revolução
de 1930”, faria o Coronel José Pessoa Souto
Maior dar a volta por cima
e reassumir o controle do poder
político municipal em Bezerros.
Isto
aconteceu porque, mesmo afastado do poder em Bezerros no período dominado pelo Partido Republicano ( 1925 –
1930 ), o Coronel José Pessoa Souto Maior ainda era
detentor de grande prestígio político e poder de influência, e neste sentido
foi apoiador de primeira hora do movimento
revolucionário que em nível nacional depôs o Presidente da República (Washington Luiz) e que em nível
regional e local (municipal)
pretendia colocar fim ao obsoleto e viciado sistema político de poder exercido
pelos representantes das chamadas “velhas
oligarquias”.
Desencadeado
e vitorioso o movimento revolucionário,
ao ter notícia da derrubada de Washington Luiz da Presidência da República, o Coronel José Pessoa Souto Maior teve curiosa
reação, que foi registrada pelo jornal Diário
da Manhã em 29 de outubro de 1930 da
seguinte maneira:
“Eram quatorze
horas quando chegou em Bezerros a communicação telegraphica da renúncia do
arbitrário Presidente da República.
De posse do
telegramma, o Coronel José Pessoa sahiu à cidade fazendo convites a todos os
bezerrenses para tomarem parte na grande e festiva passeata promovida pela
Prefeitura, que mandou repicar os sinos da matriz e queimar foguetões, etc,
etc.
Não eram
passados vinte minutos e já toda a cidade vibrava de contentamento e
enthusiasmo. Em todos os pontos da urbe ouvia-se incessantes detonações e a
vozeria álacre de centenas de senhorinhas seguidas por surprehendente multidão,
vivando pelas ruas enthusiasticamente os próceres da revolução.
Pelas dezessete
horas, vindas da Villa de São Miguel a chamado do Prefeito, chegou acompanhada
de innumeras pessoas a banda de música daquela villa, logo se incorporando à
multidão festiva, que na rua e Paço Municipal, cantava e dançava ao som de
victrolas.
Nesse momento o
enthusiasmo popular culminou, ouvindo-se então, logo após a oração patriótica e
brilhante proferida pelo Sr. Alípio Cavalcanti, o hymno nacional vibrantemente
executado.
Teve início,
então, a passeata percorrendo as principais ruas da cidade, tendo no trajecto
ao defrontar com a placa da Avenida João Pessoa, falando eloquentemente o Dr.
Promotor Público. Continuando sempre a fremir sentia-se a cada momento ser
delirante a alegria da compacta massa popular.
Ao passar pelo Bar
Glória, ahi de uma das varandas fez-se ouvir acclamadíssimo o Fiscal do Consumo.
A cada passo, de
modo estrepitoso, repetiam-se os vivas ao preclaro Presidente do Estado,
General Juarez Távora, Dr. João Pessoa, Coronel José Pessoa, etc.
Continuando sempre com o mesmo enthusiasmo, fizeram-se ouvir ainda em
calorosas orações o Major Aprígio Fonseca, Manoel Tavares, Alfredo Lopes da
Silva, Cônego Alexandre e Coronel José Pessoa.
Pelas vinte horas
teve início animado baile no Paço Municipal, terminando a patriótica festa
popular às vinte quatro horas, sem que houvesse occorrido o menor incidente
entre quantos tomaram parte na ruidosa e significativa festividade.”
Quanto
a este terceiro e último mandato de Prefeito
do Coronel José Pessoa Souto Maior ( 1930
– 1934 ), no exercício do qual inclusive faleceu em 25 de janeiro de 1934,
uma explicação:
Dissemos
antes que o Coronel José Pessoa Souto Maior havia perdido temporariamente o comando político
do município de Bezerros em
1925, ano em que o seu candidato à Prefeito (Severino Borba) foi derrotado pelo
Coronel Salviano Machado Filho na disputa eleitoral.
No
pleito seguinte, em 1928, o poder
político do Coronel Salviano Machado Filho se mostrou consolidado, uma vez que conseguiu eleger o seu sucessor
(Capitão Antônio Soares de Oliveira), candidato do seu partido (Partido Republicano).
Eleito Prefeito para
o mandato que deveria ser cumprido entre 1928 e 1931,
o Capitão Antônio Soares de Oliveira acabou falecendo durante o exercício
do cargo, em 27 de agosto de 1930, poucos
dias antes de ter início
o movimento revolucionário que resultou na deposição de Washington Luiz do cargo
de Presidente da República e na posse de Getúlio
Vargas.
A “revolução” teve início no dia 03 de outubro de 1930, e por ter sido o
principal líder político de Bezerros que
apoio o movimento, o Coronel José Pessoa Souto Maior foi nomeado Prefeito de Bezerros em meados do mesmo
mês pelo novo Governador do Estado de
Pernambuco (Carlos de Lima Cavalcanti).
A
notícia publicada no jornal Diário da
Manhã do dia 18 de outubro de 1930 informando
do ato do governador que nomeou o Coronel José Pessoa Souto Maior para o cargo
de Prefeito de Bezerros é curiosa e
os termos nela utilizados chamam a atenção, conforme se vê abaixo:
“O Governador do
Estado resolve nomear o Coronel José Pessoa Souto Maior e Feliciano Lyra, para
exercerem os cargos, respectivamente, de Prefeitos dos municípios de Bezerros e
Canhotinho, até que fique restaurada a vida constitucional do Estado e do País
e emquanto bem servirem ao programma revolucionário.”
Ainda
que sua atuação política em Bezerros tenha
se desenvolvido em nível municipal – já que exerceu o cargo de Prefeito em três períodos – o Coronel José Pessoa Souto Maior sempre dedicou especial
atenção para os problemas do Terceiro
Distrito e da Vila de São Miguel,
bem como para as necessidades da gente de sua terra. E não é à toa que seja ele
a única pessoa que em Sairé, e por
gratidão do seu povo, recebeu a honraria de ser homenageado com um busto de bronze.
A história do busto de bronze do Coronel José Pessoa Souto Maior é, por si
só, interessante e merece ser aqui registrada.
Pois bem.
Com o
falecimento do Coronel José Pessoa Souto Maior em 25 de janeiro de 1934, quis o
povo do então Terceiro Distrito e da Vila de São Miguel prestar-lhe sincera homenagem
e para tanto encomendaram seu busto ao
renomado escultor pernambucano Luiz Ferrer. O busto ficou pronto
em poucos meses e inicialmente foi inaugurado e exposto ao povo na cidade de Bezerros em setembro de 1934.
O busto permaneceu exposto na cidade de Bezerros por alguns meses, até que em 25 de janeiro de 1935 foi trasladado para a Vila de São Miguel e reinaugurado na mesma data, durante as
homenagens prestadas ao Coronel José Pessoa Souto Maior por ocasião
das comemorações do primeiro aniversário do seu falecimento.
Na
então Vila de São Miguel o busto inicialmente permaneceu exposto
em frente à praça da Igreja de São Miguel e atualmente se
encontra exposta na hoje cidade de Sairé,
mais precisamente na Avenida Coronel José Pessoa Souto Maior (nas
proximidades da Prefeitura Municipal).
Transcorridos
agora exatos 90 anos do falecimento
do ilustre Coronel José Pessoa Souto Maior, seu nome é lembrado em Sairé como sendo o filho da terra que
na sua época alcançou o maior prestígio político e que maior dedicação teve ao
lugar do seu berço e à sua gente.
E essa história
não pode ser ignorada por nenhum saireense!
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